O debate climático no Brasil costuma girar em torno de desmatamento, queimadas e emissões do setor energético. Conforme aponta Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental e especialista em soluções ambientais, a contribuição dos resíduos sólidos para as mudanças climáticas raramente ocupa posição central nessa discussão, apesar de representar uma fonte de emissões significativa, crescente e, em grande parte, evitável. O especialista ainda ressalta que há uma preocupação crescente, especialmente diante do avanço das metas climáticas brasileiras assumidas em fóruns internacionais.
O setor de resíduos responde por uma parcela relevante das emissões nacionais de gases de efeito estufa, com destaque para o metano liberado pela decomposição de matéria orgânica em aterros e lixões. Com potencial de aquecimento global cerca de 80 vezes superior ao do CO₂, o metano faz de cada tonelada de resíduo orgânico sem tratamento adequado uma contribuição desproporcional ao clima. Mesmo assim, o setor continua sendo tratado como coadjuvante nas estratégias nacionais de mitigação.
Por que o metano dos aterros é um problema maior do que parece?
A decomposição de resíduos orgânicos em aterros sanitários e lixões ocorre predominantemente em condições anaeróbicas, sem presença de oxigênio, o que favorece a produção de metano em vez de dióxido de carbono. Diante disso, aterros sanitários bem operados captam parte desse biogás e o utilizam para geração de energia, reduzindo as emissões atmosféricas e transformando um passivo ambiental em recurso energético. Lixões, no entanto, lançam esse metano diretamente na atmosfera, sem qualquer aproveitamento ou controle.
Marcello José Abbud evidencia que o problema se agrava quando se considera que o Brasil ainda possui centenas de disposições irregulares ativas e que mesmo aterros sanitários formais frequentemente operam com sistemas de captação de biogás ineficientes ou inexistentes. O resultado é um fluxo contínuo de emissões que não aparece nas manchetes sobre clima, mas que se acumula silenciosamente no balanço de carbono do país.
A fração orgânica como chave da solução climática
A fração orgânica representa entre 45% e 60% do lixo gerado nos municípios brasileiros. É também o componente com maior impacto climático quando destinado inadequadamente e com maior potencial de contribuição positiva quando gerenciado com tecnologia adequada. A compostagem industrial desvia essa fração dos aterros, elimina a geração de metano associada e produz fertilizante orgânico que substitui insumos químicos com alta pegada de carbono. A digestão anaeróbica controlada vai além, capturando o biogás gerado para uso energético e produzindo biofertilizante como subproduto.

Marcello José Abbud e a equipe da Ecodust Ambiental têm desenvolvido soluções orientadas precisamente para esse segmento, reconhecendo que o tratamento da fração orgânica é simultaneamente a maior oportunidade de redução de emissões no setor de resíduos e o componente mais negligenciado pelos sistemas municipais de gestão.
Créditos de carbono e resíduos: uma oportunidade que o Brasil subutiliza
Projetos de gestão de resíduos que reduzem emissões de metano são elegíveis para geração de créditos de carbono em diversos mecanismos internacionais, incluindo o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e mercados voluntários de carbono. Dessa forma, essa monetização se aplica a aterros que implantam sistemas de captação e queima ou aproveitamento de biogás, municípios que substituem lixões por aterros sanitários com controle de emissões e projetos de compostagem em larga escala. Essas iniciativas geram uma fonte adicional de receita que melhora a viabilidade econômica dos investimentos.
Por sua vez, o Brasil possui um estoque enorme de projetos potenciais nessa área, mas ainda converte uma fração pequena desse potencial em créditos efetivamente gerados e comercializados, conforme destaca Marcello José Abbud. Barreiras técnicas, regulatórias e de capacidade institucional limitam o acesso de municípios e operadores a esse mercado. Esse cenário, contudo, está mudando com o avanço da regulamentação do mercado brasileiro de carbono.
O que muda quando o setor de resíduos entra de verdade na agenda climática?
Incluir o setor de resíduos como componente central das estratégias climáticas brasileiras não é apenas uma questão ambiental. É também uma decisão econômica e de saúde pública, visto que a redução das emissões de metano melhora a qualidade do ar em regiões próximas a aterros, reduz riscos de explosão e incêndio, gera energia renovável e cria oportunidades de receita por meio de créditos de carbono. Todos esses benefícios se somam ao impacto climático direto, tornando o investimento em gestão adequada de resíduos um dos mais eficientes em termos de custo por tonelada de carbono evitada.
Especialistas como Marcello José Abbud identificam nesse momento uma oportunidade concreta de reposicionar o setor de resíduos dentro da agenda climática nacional, aproveitando o crescente interesse de investidores e governos por soluções que combinem impacto ambiental mensurável com viabilidade econômica demonstrável.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez