Os números do crédito em atraso no Brasil impressionam por si só, mas Felipe Rassi, analista de mercado de ativos estressados, chama atenção para um dado que passa despercebido na leitura mais superficial das manchetes: o mercado de cessão de crédito não performado está crescendo em ritmo ainda mais acelerado do que a própria inadimplência que o alimenta. Segundo dados do Banco Central levantados pela Fecomercio-SP, o volume de crédito em atraso no país chegou a R$ 247,6 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026, alta de 50,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Enquanto isso, o mercado de cessão desses créditos projeta um salto ainda maior. Segundo pesquisa da Deloitte sobre o ciclo 2025 e 2026, o volume negociado deve crescer 73% neste ano, alcançando R$ 52,3 bilhões, depois de fechar 2025 em R$ 30,2 bilhões. A diferença entre essas duas velocidades de crescimento diz algo importante sobre a maturidade institucional que o setor vem construindo, e vale entender o que está por trás desse descompasso antes de tirar conclusões apressadas sobre o que os dados de inadimplência realmente significam para quem acompanha o setor de perto.
No artigo a seguir, entenda esse descompasso e o mercado que vem por ai!
O que os números recentes revelam sobre o volume negociado?
O Sistema Financeiro Nacional encerrou 2025 com saldo total de carteira acima de R$ 7 trilhões, crescimento de 10% no ano, segundo dados do Banco Central citados pela Deloitte. Nesse mesmo período, o país fechou o ano com 81,2 milhões de consumidores e 8,9 milhões de empresas em situação de inadimplência, conforme a mesma pesquisa. Já dados divulgados pela Recovery, empresa especializada em recuperação de crédito, indicam que o mercado de venda de carteiras inadimplentes movimentou aproximadamente R$ 34 bilhões em 2025, ante R$ 28 bilhões no ano anterior.
Esses números, lidos em conjunto, mostram um mercado que não apenas acompanha o crescimento da inadimplência, mas se expande em ritmo próprio, alimentado por fatores que vão além do simples aumento do estoque de crédito vencido disponível para negociação.
Por que a inadimplência sozinha não explica o crescimento do mercado?
Porque o volume de cessão depende também da capacidade das instituições de estruturar, precificar e vender essas carteiras, e não apenas do estoque de crédito vencido disponível. Fatores como mudanças regulatórias, maturidade de processos e apetite de investidores especializados influenciam diretamente esse ritmo.
Felipe Rassi observa que tratar inadimplência e cessão de crédito como a mesma coisa é um erro comum de leitura: a taxa de inadimplência funciona como indicador macro de pressão sobre o crédito, enquanto o volume cedido reflete decisões estratégicas de instituições que já convivem com esse estoque há mais tempo e decidiram transferi-lo. Um número pode subir sem que o outro acompanhe no mesmo ritmo, e foi exatamente isso que os dados recentes mostraram.
Como resoluções e regras contábeis mudam o ritmo das cessões?
Parte da aceleração recente também está ligada a mudanças regulatórias específicas. A Resolução 4.966/21, que trata de provisionamento de perdas, influenciou a decisão de vender carteiras para 60% das instituições consultadas pela Deloitte, ainda que 41% delas afirmem não ter percebido, até agora, mudança relevante na frequência ou no volume de cessões. Já a Lei 14.467/22, que trata da dedução fiscal de perdas na cobrança de recebíveis, já foi incorporada ao planejamento de 2026 por 81% das empresas participantes do mesmo estudo.

Esse tipo de mudança normativa costuma ter efeito defasado sobre o volume observado no mercado, já que instituições precisam ajustar processos internos antes que a decisão de ceder uma carteira se traduza em transação efetivamente fechada. Segundo Felipe Rassi, é esse intervalo entre mudança de regra e reflexo prático que explica parte da aceleração vista agora, e não no momento em que as normas foram originalmente publicadas.
O que os dados sugerem sobre o comportamento recente dos preços?
Apesar do crescimento no volume negociado, o próprio estudo da Deloitte revela que 51% das empresas participantes não concluíram operações de cessão por desalinhamento entre o preço esperado pelo vendedor e o valor efetivamente ofertado pelo comprador. Esse dado mostra que crescimento de mercado e facilidade de negociação não são a mesma coisa: mais oferta de carteiras não significa, automaticamente, mais operações fechadas com rapidez.
Esse tipo de atrito de preço, na leitura de Felipe Rassi, tende a diminuir à medida que compradores e vendedores acumulam mais histórico de transações comparáveis entre si, o que reforça a padronização documental como caminho natural para destravar negociações hoje travadas por expectativas desalinhadas de preço.
Números só fazem sentido quando explicam processo, não promessa
Reunidos, esses dados mostram um mercado que cresce por razões estruturais, e não apenas como reflexo do aumento da inadimplência das famílias e empresas brasileiras. Crescimento de volume, mudança regulatória e maturidade de processos caminham juntos, a fim de sustentar um ciclo de expansão que já dura mais de um ano, segundo os próprios levantamentos setoriais recentes.
Como analista de mercado de ativos estressados, Felipe Rassi resume essa leitura como um convite à cautela interpretativa: números de mercado só agregam valor real quando lidos ao lado dos processos que os sustentam, de modo que projeções de crescimento sejam compreendidas como sinal de ciclo, e não como garantia de resultado, para quem acompanha de perto a evolução do mercado de crédito estressado no Brasil.