Metas ambiciosas costumam ser abandonadas antes do fim do primeiro trimestre. Metas realistas, quando cumpridas, entregam pouco. O impasse aparece até em relatos de trajetória, como os reunidos pelo empresário Alfredo Moreira Filho em Pequenas Histórias e Algumas Percepções.
A saída mais comum é encolher o alvo até ele caber com folga na rotina. O plano passa a ser cumprido e ninguém comemora, porque o resultado não muda nada. O erro está antes do número: em tratar ambição e realismo como extremos de uma mesma régua.
Ambição diz respeito ao resultado perseguido. Realismo diz respeito ao recurso disponível para persegui-lo. São perguntas diferentes, e cada uma tem um método próprio de resposta.
Como um gestor pode garantir que seu objetivo de faturamento não seja apenas um desejo vago?
Um gestor que promete dobrar o faturamento e outro que promete crescer cinco por cento podem cometer o mesmo erro, se nenhum dos dois calculou o que o número exige. O primeiro definiu um desejo. O segundo definiu uma projeção de inércia.
Meta é o encontro de um alvo com um compromisso de recurso. O alvo pode ser puxado para cima, porque alvo baixo não organiza esforço nenhum. Já o compromisso precisa ser medido em algo escasso e contável: horas por semana, capital disponível, pessoas envolvidas. O realismo entra aí, na conta do caminho, e não na altura do número.
O teste da agenda: quanto a meta custa por semana?
Uma certificação que exige duzentas horas de estudo, distribuídas em oito meses, consome cerca de seis horas por semana. Quem tem duas horas livres não possui uma meta ambiciosa. Possui um plano impossível vestido de ambição.
Converter o alvo em tempo semanal muda a discussão. Em vez de debater se o objetivo é ousado demais, debate-se de onde saem as seis horas e o que deixa a agenda para abri-las. A trajetória de Alfredo Moreira, que saiu de Igrapiúna, no sul da Bahia, e passou por Viçosa, Manaus e Tucumã antes de se fixar em Brasília, ilustra o ponto: cada mudança de contexto impôs novo cálculo de recursos.
Como a definição de metas como faixa pode evitar a sensação de fracasso?
Metas escritas como número único produzem dois resultados ruins. Se o número é batido, a régua estava baixa. Se não é, o ano inteiro vira fracasso, ainda que oitenta por cento do caminho tenha sido percorrido.
Escrever a meta como faixa resolve boa parte do problema. O topo é o alvo ambicioso, aquele que exige que tudo dê certo. A base é o piso, o resultado abaixo do qual o esforço não se justificou. Entre os dois existe uma zona de sucesso parcial, onde terminam a maioria dos planos honestos. Ao encerrar seu livro, Alfredo Moreira Filho sugere quatro fatores para uma vida equilibrada, entre eles não se acomodar à zona de conforto. A faixa traduz essa ideia em método: mantém a pressão do alvo sem transformar cada desvio em derrota.
O indicador que se mede antes do resultado aparecer
Faturamento, número de clientes, aprovação em prova: todos chegam tarde. Quando o dado aparece, não há mais correção possível. Por isso, cada meta precisa de um segundo indicador, ligado ao esforço e medido em intervalos curtos.
Uma meta de vendas tem como par as conversas iniciadas por semana. Uma meta de qualificação tem como par as horas efetivamente estudadas. Esse indicador não substitui o resultado, mas é o único que permite corrigir rota enquanto ainda existe prazo. É ele que sustenta a ambição nos meses em que o número final não dá sinal.
Quando abandonar uma meta sem chamar isso de fracasso?
Quase nenhum plano prevê a própria interrupção. Metas são escritas como se o cenário fosse ficar parado, e, quando ele muda, a persistência vira teimosia. Definir a condição de saída no momento da criação separa uma coisa da outra: se determinado recurso desaparecer, a meta é revista, não perseguida por orgulho.
Ambição madura não é a que resiste a tudo. É a que reconhece quando o alvo deixou de pagar o próprio custo. Quando Alfredo Moreira Filho trocou a engenharia agronômica no Amazonas pela gestão empresarial em Brasília, o alvo mudou e o critério de escolha permaneceu. Meta realista não é meta pequena. É meta com preço calculado antes de ser assumida.